Capítulo 9

Fazer valer a nova orientação
numa Igreja do “Pós-Fátima”

       Nos meses seguintes à conferência de imprensa de 26 de Junho, assistiu-se a uma aceleração na campanha para impor a nova orientação à Mensagem de Fátima e à Igreja em geral.

       Por exemplo, a 29 de Junho de 2000, apenas dois dias após a farsa de Gorbachev, teve lugar um evento aparentemente sem qualquer relação com isto, mas que, na verdade, foi extremamente relevante. O Cardeal Castrillón Hoyos, na sua qualidade de chefe da Comissão Ecclesia Dei, emitiu uma carta criada para assegurar o acesso à Missa tradicional em Latim àqueles que a desejam - carta que anuncia algo completamente extraordinário, num tempo de generalizada falta de disciplina na Igreja: o Capítulo Geral (encontro) da Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro (aprovado pelo Papa João Paulo II para servir as necessidades de Católicos tradicionais que não aceitaram bem as mudanças da Igreja) será suprimido. A sua eleição não se realizará. Aos Sacerdotes membros da Fraternidade Sacerdotal, não lhes será permitido reeleger para seu superior o Padre Josef Bisig, o qual se esperava fosse nomeado e reeleito por esmagadora maioria no Capítulo. E o Cardeal Castrillón Hoyos, pura e simplesmente, haveria de impor à Fraternidade um candidato mais ao seu gosto. Além disso, os reitores dos dois Seminários da Fraternidade seriam demitidos e substituídos por Padres com uma mente mais liberal.

       A fundamentação para as acções do Cardeal está expressa na sua carta:

       Sabe muito bem que o seu Seminário é observado por muitas pessoas da Igreja e que tem de ser exemplar em todos os aspectos. Em particular, pede-se que evite e que combata um certo espírito de rebeldia contra a Igreja da actualidade, espírito esse que facilmente encontra seguidores entre os jovens estudantes que, como todos os jovens, são já inclinados a posições extremas e rigorosas1.

       Numa entrevista posterior à revista 30 Days, o Cardeal acrescentou, explicando, que ele estava apenas a ajudar a Fraternidade «a alcançar um compromisso entre o seu carisma original e o resultado da sua inserção no interior da realidade eclesial de hoje»2.

       Considerem-se ambas estas frases: «um certo espírito de rebeldia contra a Igreja da actualidade» e «a sua inserção no interior da realidade eclesiástica de hoje». Ora, os seminaristas da Fraternidade Sacerdotal são Católicos baptizados; nasceram e foram criados no ambiente geral da Igreja Católica; não eram membros da supostamente “cismática” Sociedade de S. Pio X, fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre, conhecido pela sua resistência às mudanças pós-conciliares. Não. Eles eram jovens vindos da assembleia global da Igreja, que entraram nos Seminários da Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro para aí se formarem de uma forma tradicional e para celebrarem a Missa tradicional em Latim.

       E vêm agora dizer a estes jovens - que nunca aderiram a um (suposto) cisma - que têm de se inserir, seja como for, na “Igreja da actualidade” e na “realidade eclesial de hoje”. Mas, se eles já são Católicos, então em que é que devem ser “inseridos”? Na Santa Igreja Católica? Certamente que não. Aquilo de que o Cardeal está a falar - quer ele o saiba explicitamente ou não - é da Igreja da Adaptação; a Igreja da nova orientação. Sabemo-lo, porque os Padres e Seminaristas da Fraternidade de S. Pedro, que foi aprovada pelo Papa, são indubitavelmente Católicos; ora, se estão a ser inseridos em qualquer coisa, não é na Santa Igreja Católica, mas sim numa outra coisa.

       É por isso que falamos da Estalinização da Igreja. Não é como se a Igreja tivesse sido completamente destruída e tenha cessado inteiramente de ser o que era - porque isto é impossível, dada a promessa de Nosso Senhor de que as portas do Inferno não prevaleceriam contra a Sua Igreja. É antes como se uma espécie de Cavalo de Tróia se tivesse instalado dentro da Igreja - uma igreja dentro da Igreja; uma colecção de novas práticas e atitudes - coisa nunca antes vista na História da Igreja -, e que agora teima em insistir que isso é que é a Igreja. E quem quiser situar-se na Igreja actual, na Santa Igreja Católica, tem de consentir em ser inserido nessa “realidade eclesial de hoje” dentro da perene realidade eclesial da Igreja. Ora “a realidade eclesial de hoje” é apenas um fenómeno temporário que Deus não deixará de rectificar, devido aos incontáveis prejuízos que causou à Igreja; mas o Cardeal Castrillón e os seus colaboradores, depositários de toda a Linha do Partido da nova orientação da Igreja, querem aparentar que se trata de algo permanente.

       Não se poderia pedir uma prova melhor da existência da nova orientação da Igreja - a sua Adaptação Estalinista, digamos - do que o manejo brutal, feito pelo Cardeal, da Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro. Uma tal acção nunca teria sido tomada contra os Jesuítas, ou contra outras ordens sacerdotais que têm estado a corroer a Igreja desde o Concílio Vaticano II. E porquê? Porque estas ordens, moral e doutrinalmente corruptas, aderem à Adaptação, à Linha do Partido, à nova orientação. Na crise actual, a única coisa que o Vaticano está disposto a fazer cumprir com acções imediatas e vigorosas é a Adaptação da Igreja ao mundo - não uma sólida doutrina nem uma prática sólida, que são desprezadas por toda a parte na Igreja, quase com impunidade; mas, apenas, a Adaptação.

       Em Setembro de 2000 defrontámo-nos com outro exemplo dramático da Adaptação da Igreja. De 12 a 19 de Setembro de 2000, o Cardeal Roger Etchegaray estava na China Vermelha para assistir a um “Simpósio sobre as Religiões e a Paz”. Ali ele celebrou Missa na presença dos Bispos cismáticos da Associação Católica Patriótica (Catholic Patriotic Association - CPA). A Missa foi celebrada no Santuário de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos, que o regime comunista chinês roubou à verdadeira Igreja Católica na China3.

       A CPA foi formada nos anos 50 do século XX para substituir a Igreja Católica, depois de o “Presidente Mao” ter declarado a Igreja Católica “ilegal” na China Vermelha. Portanto, a CPA é uma organização humana criada por um governo comunista e apresentada como uma “igreja” à qual os Católicos Chineses têm de aderir, abandonando a Igreja Católica Romana cuja existência, em si mesma, fora declarada “ilegal” pelo regime da China Vermelha. A constituição da CPA rejeita explicitamente a submissão ao Papa e declara a CPA autónoma de Roma. Todos os Bispos e Padres da CPA são, portanto, cismáticos por definição.

       Foram sagrados ilicitamente mais de 100 Bispos pela CPA, sem um mandato papal, em violação directa do Código de Direito Canónico; pior ainda, aqueles Bispos ilicitamente consagrados declararam publicamente a sua fidelidade - primeiro que tudo - ao Regime Comunista, enquanto negavam (na Constituição da CPA) qualquer fidelidade ou submissão ao Papa. Como resultado destes actos, tanto estes Bispos ilícitos como aqueles que os consagraram são excomungados. Em 1994, os Bispos da CPA emitiram uma chamada carta pastoral na qual aprovavam a política de controlo da população na China, que inclui abortos forçados a todas as mulheres que já tenham um filho, e exortando os Católicos Chineses a apoiarem esta abominação.

       Em resumo: a CPA é uma organização criada pelo Comunismo, controlada pelo Comunismo, abertamente cismática, abertamente herética e a favor do aborto, criada pelo próprio Demónio agindo através de Mao Tse-tung e do seu sucessor, o “Presidente” Jiang. E, apesar disso, o Vaticano não declarou cismáticos, nem excomungou estes Clerigos controlados pelo Comunismo e favoráveis ao aborto. Em vez disso, o Cardeal Etchegaray foi à China e celebrou Missa na presença dos Bispos da CPA num Santuário Mariano - que a CPA roubara à Igreja Católica e aos Fiéis Católicos, com a ajuda dos carrascos Comunistas. O Cardeal Etchegaray chegou mesmo a afirmar que “reconhecia a fidelidade ao Papa dos Católicos da igreja oficial [i.é, a CPA]” - fidelidade ao Papa da parte dos Bispos que apoiam abortos forçados e cuja associação, controlada pelos Comunistas, rejeita a primazia papal na sua própria constituição? Que disparate é este?

       Enquanto o Cardeal Etchegaray estava na China, um Padre católico de 82 anos de idade, da Igreja Católica “do silêncio” que continua em união com Roma, foi agredido até ficar em coma e ser levado para a prisão pela polícia de “segurança”4. De acordo com a Ostpolitik, o Vaticano não fez qualquer protesto pelo ataque, quase fatal, a este Padre, nem qualquer protesto pela detenção, condenação e tortura de Padres, Bispos e leigos católicos leais, pelo regime da China Vermelha. O aparelho de Estado do Vaticano ainda está acorrentado à nova orientação da Igreja - “diálogo” com os inimigos da Igreja e silêncio, mesmo perante a tortura e perseguição abertas aos crentes católicos. Este é o fruto do abandono que a nova orientação da Igreja vota à justa oposição ao Mal. E esta política de Adaptação da Igreja terá, a longo prazo, o efeito pretendido em mais alguns milhões de pessoas - que cairão na apostasia e perderão a sua Fé, porque o aparelho de Estado do Vaticano não mais se oporá com firmeza ao Mal usando a justa cólera do passado.

       Aqui, também, podemos verificar que existe uma diferença de tratamento entre os Católicos tradicionais - que, de uma maneira ou de outra, se apresentam como um obstáculo à nova orientação - e aqueles que abraçam a nova orientação, completa e inteiramente. Em contraste com estas cedências do Vaticano à CPA, o Arcebispo Marcel Lefebvre foi publicamente declarado excomungado e cismático, num motu proprio preparado para receber a assinatura do Papa, num espaço apenas de 48 horas a seguir à sagração feita pelo Arcebispo Lefebvre daqueles quatro Bispos sem um mandato papal5 - acto esse que o Arcebispo realizou numa tentativa (que alguns poderão pensar ter sido imprudente) de manter a tradição católica numa Igreja que parece ter perdido a razão.

       Ora os Chineses Vermelhos obtêm (através de Bispos anteriormente católicos) a sagração de 100 Bispos sem um mandato papal - para a sua “igreja” a favor do aborto -, e o Vaticano não toma qualquer acção punitiva. Pelo contrário, envia nada menos do que um Cardeal como seu representante, para confraternizar com alguns dos Bispos ilícitos! Todavia, quando o Arcebispo Lefebvre consagra quatro Bispos para servir a Tradição Católica, é imediatamente lançado nas trevas exteriores pelo mesmo aparelho de Estado do Vaticano - apesar de o Arcebispo Lefebvre e de os quatro Bispos recém-consagrados terem professado, de forma consistente, a sua lealdade ao Papa, a Quem eles estavam a tentar servir ao conservarem a prática e a crença da Tradição Católica. Porquê esta disparidade notável de tratamento? E, uma vez mais, a resposta é: que o Arcebispo Lefebvre resistiu à Adaptação, enquanto os Bispos da China Vermelha, por outro lado, a põem em prática.

       Mas ainda é pior do que isto. Segundo uma Carta Aberta de protesto, dirigida ao Cardeal Sodano e a outros membros do aparelho de Estado do Vaticano, e publicada pela Fundação do Cardeal Kung, deram a Padres do CPA - uma “igreja” cismática, de controlo comunista e a favor do aborto - missões canónicas e faculdades sacerdotais em dioceses americanas. Assim, estes Padres comunistas celebram Missa e ouvem confissões de Fiéis, Católicos Romanos; nas suas paróquias locais - onde estes agentes de um governo comunista ficam a saber os pecados secretos de inúmeros americanos, o que pode fornecer aos senhores do Comunismo Chinês material para chantagem. Isto foi confirmado pelo Arcebispo Levada, de São Francisco, que declarou que o Vaticano - e o Cardeal Sodano esteve certamente envolvido nesta decisão - deu o seu consentimento para “uma missão apostólica” a estes Padres da CPA que favorecem o aborto, são controlados pelos Comunistas e são cismáticos6.

       Há aqui uma penetração literal e visível do poder comunista no corpo da Igreja. Não pode haver uma demonstração mais dramática do que esta da Adaptação. Mas a presença destes Padres, controlados pelos Comunistas, em paróquias americanas não é mais do que uma imagem de todo um processo que foi propagado em Metz, França, já em 1962, quando a ponte levadiça da Igreja foi baixada e as forças do mundo, inimigos jurados da Igreja, começaram a marchar para o seu interior - o que, inclusivamente, levou o Papa Paulo VI a falar da invasão da Igreja pelo pensamento mundano.

A Adaptação da Mensagem de Fátima

       Em nenhuma parte se poderá encontrar um exemplo mais triste da Adaptação da Igreja do que o que aconteceu no dia 8 de Outubro de 2000: realizou-se então no Vaticano uma cerimónia «confiando» várias coisas a Maria Santíssima - uma “entrega” para as massas, para tirarem do pensamento a Consagração da Rússia. Durante esta cerimonia, «todos os povos», o mundo, os desempregados, até mesmo «a juventude à procura de um rumo» - tudo e todos menos a Rússia - foram “confiados” a Nossa Senhora. No dia anterior a esta cerimónia, a recitação do Terço na Praça de S. Pedro foi difundida por todo o mundo via satélite. Mas faltou uma coisa: as orações de Fátima. No Vaticano ninguém rezaria: «Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno. Levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem.» Todavia, uma dezena do terço foi recitada pela Irmã Lúcia, diante das câmaras, no seu convento em Coimbra. Com um ar completamente infeliz, a Irmã Lúcia recitou as orações, sim - mas em Português. Ela tinha sido reduzida a uma figurante num truque publicitário.

       Vemos aqui a Sergianização da Mensagem de Fátima, a Adaptação de Fátima ao mundo. Nossa Senhora de Fátima torna-se Nossa Senhora dos Desempregados, Nossa Senhora da Juventude à procura de um rumo; e suprimem-se do Rosário as orações de Fátima.

       Isto remete-nos para o início de 2001. O ano de 2000 fora um ano atarefado para a Adaptação, mas havia alguns ‘arranjos’ a fazer. Como o Padre Gruner estava ainda a dirigir o seu Apostolado de Fátima com bastante dinamismo, o Cardeal Castrillón Hoyos escreveu-lhe no dia 16 de Fevereiro de 2001, renovando a ameaça de excomunhão que tinha feito ao Padre Gruner em Junho do ano anterior: se o Padre Gruner não parasse com as suas actividades, então tomar-se-iam “medidas definitivas que seriam penosas para todos os envolvidos”.

       Na mesma carta, o Cardeal Castrillón deu outra demonstração da nova orientação que estava a ser aplicada à Mensagem de Fátima. De acordo com o Cardeal Castrillón, «A Bem-aventurada Mãe apareceu aos três pequenos videntes na Cova da Iria no começo do século, e marcou um programa para a Nova Evangelização com o qual toda a Igreja se encontra comprometida, e que ainda é mais urgente no limiar do terceiro milénio»7. Nossa Senhora de Fátima era agora Nossa Senhora da Nova Evangelização - coisa sobre a qual Ela não tinha dito, em Fátima, uma única palavra sequer!

       Nossa Senhora não veio a Fátima para anunciar a “Nova Evangelização”, slogan que descreve uma campanha nova e ineficaz para estimular a fé moribunda dos que já são Católicos8. Nem veio Nossa Senhora anunciar quaisquer dos outros slogans obscuros que têm infestado a Igreja nos últimos quarenta anos: “diálogo ecuménico”, “diálogo inter-religioso”, “solidariedade”, “a civilização do amor”, “inculturação”, e assim por diante. Ela veio anunciar a Velha Evangelização, o Evangelho perene de Jesus Cristo - Que é o mesmo ontem, hoje e sempre -, o mesmo Cristo que advertiu o mundo que «Aquele que acredita e é baptizado será salvo; aquele que não acredita será condenado». Um grupo de apoiantes do Padre Gruner protestou deste modo na sua resposta ao Cardeal:

       Eminência, onde é que alguém pode encontrar qualquer um destes elementos na Vossa interpretação da Mensagem de Fátima? Onde está o Céu e onde está o inferno, visto que só falais vagamente de “Realidades Fundamentais” - designação que qualquer maçon acharia aceitável? Onde está o Triunfo do Coração Imaculado de Maria? Onde estão a Consagração e a Conversão da Rússia? Onde estão os avisos de Nossa Senhora? Onde está, na realidade, a Mensagem de Fátima?

       A Mensagem de Nossa Senhora de Fátima ao Mundo não tinha slogans como “a Nova Evangelização”. A Senhora não proferiu qualquer slogan, mas apenas a simples verdade católica: que muitas almas estão a arder no Inferno, por falta de Fé Católica; que para salvar as almas Deus ordena, como uma necessidade, que se estabeleça no Mundo - e não apenas entre aqueles que já são Católicos - a devoção ao Seu Imaculado Coração; que o Seu Imaculado Coração tem de triunfar pela Consagração da Rússia àquele Coração; que só desta forma poderá haver a verdadeira Paz no nosso tempo. E Nossa Senhora de Fátima também nos deu um aviso sobre as consequências de não atendermos aos Seus pedidos: guerras e perseguição da Igreja, o martírio dos bons, o sofrimento do Santo Padre, o sofrimento de todo o mundo - tudo o que está a acontecer neste momento na História - e, finalmente, que se continuarmos a ignorar os Seus pedidos, várias nações serão aniquiladas.

       A Mensagem de Fátima foi, muito simplesmente, apagada da existência e transformada em slogans da Adaptação. E de acordo com esta Adaptação Estalinista da Igreja, haveria censura de qualquer um que atendesse à interpretação anterior dos velhos termos. Na mesma carta de 16 de Fevereiro, o Cardeal Castrillón Hoyos exigiu que o Padre Gruner “retractasse publicamente”, na revista do seu Apostolado, certas opiniões que o Cardeal entendeu serem censuráveis. Numa Igreja em que abunda a literatura herética, que arruinou a Fé de milhões de pessoas e pôs as suas almas em perigo, o Cardeal Castrillón Hoyos quis censurar a revista The Fatima Crusader! E porquê? Porque a revista tinha ousado criticar, não os ensinamentos católicos sobre a Fé e a Moral, mas as decisões consultivas do Cardeal Sodano e dos seus colaboradores - incluindo as suas conferências de imprensa e os jantares com gente da laia da Mikhail Gorbachev, as suas relações confortáveis com a CPA cismática, e a sua tentativa de enterrar a Mensagem de Fátima sob uma montanha de falsas interpretações.

       O tratamento dado ao Padre Gruner, à Fraternidade Sacerdotal de S. Pedro, ao Arcebispo Lefebvre, à Sociedade de S. Pio X, e a outros obstáculos (compreendidos como tais) à Nova Orientação do Concílio Vaticano II demonstra que a época pós-conciliar apresenta uma situação muito parecida com a que S. Basílio lamentava, no ponto mais alto da heresia ariana: «Hoje só um delito é vigorosamente castigado: uma observância precisa das tradições dos nossos pais. Por esta causa, os piedosos são arrebatados dos seus países e transportados para desertos.»

       E, de facto, hoje em dia só um delito é castigado vigorosamente: uma observância precisa das tradições pré-conciliares constantes da Igreja - resumidas na Mensagem de Fátima. É estranho constatar que o próprio Cardeal Ratzinger fez a seguinte observação sobre o chamado “cisma de Lefebvre” na sua alocução de 1988 aos Bispos do Chile:

       O que era antes considerado Muito Santo (a forma na qual a Liturgia nos foi passada) de repente parece ser a mais proibida de todas as coisas, a única que pode ser proibida com segurança. É intolerável criticar as decisões que foram tomadas desde o Concílio. Por outro lado, se os homens questionam antigas regras ou mesmo as grandes verdades da Fé, como, por exemplo, a Virgindade corporal de Maria, a Ressurreição corporal de Jesus, a imortalidade da alma, etc., ninguém reclama, ou só o faz com a maior das moderações. Tudo isso leva um grande número de pessoas a perguntar a si próprias se a Igreja de hoje é, realmente, a mesma de ontem, ou se foi transformada noutra coisa qualquer, sem que nada tivesse sido dito aos Fiéis.

       Mais estranho ainda, é que o Cardeal Castrillón Hoyos admitiu o mesmo. Na entrevista acima mencionada à revista 30 Days, ele afirmava: «A grande urgência do nosso tempo é demonstrar às pessoas que a Igreja de hoje é a mesma Igreja que sempre foi». Mas, antes de mais: por que razão há uma tal “urgência”? Quando é que em toda a História da Igreja Católica teve de ser alguma vez demonstrado que a Igreja ainda era a mesma de antes? Por que razão é que tal demonstração seria necessária, se não houvesse um motivo muito forte para acreditar que a Igreja foi realmente mudada?

       E há, de facto, um motivo muito forte para o suspeitar, como nós demonstrámos. Desde o Vaticano II que a Igreja Católica sofreu uma Adaptação, precisamente segundo as linhas preditas, traçadas e levadas a cabo pelos seus piores inimigos. E os que estão hoje a dirigir a Igreja recusam-se a reconhecer o que aconteceu, mesmo que eles próprios não sejam agentes conscientes dessa destruição. Eles são, como Nosso Senhor disse sobre os Fariseus, «cegos a guiar outros cegos. E se um cego guia outro cego, ambos caem no precipício» (Mt. 15:14).

       Como disse a própria Irmã Lúcia: «Por isso o Demónio lhe tem feito tanta guerra! (contra o Terço) E o pior é que tem conseguido iludir e enganar almas cheias de responsabilidade, pelo lugar que ocupam! (…) São cegos a guiar outros cegos! (…) »9.

       E, como São Paulo declarou em relação ao mesmo tipo de pessoas de dura cerviz, «Não há ninguém mais cego do que aquele que não quer ver.» Também está escrito nas Sagradas Escrituras: «Porque o coração deste povo tornou-se insensível; são duros dos ouvidos e fecharam os olhos, para que não vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, e se convertam, e Eu os sare» (Actos 28:27). Eles defendem cega e obstinadamente uma Adaptação da Igreja Católica como se fosse um dogma da Fé, enquanto os autênticos dogmas da Fé estão a ser enfraquecidos insidiosamente por toda a Igreja perante os seus próprios olhos, sem que eles façam coisa alguma.


Notas

1. Carta ao Capítulo Geral da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, 29 de Junho de 2000.

2. Revista 30 Days, Nº 11, 2000, p. 17.

3. Zenit, 19 de Setembro de 2000.

4. CWN News Brief, 18 de Setembro de 2000.

5. Embora seja certo que, em circunstâncias normais, um Bispo não deve consagrar um novo Bispo sem permissão ou autorização explícita do Papa, prevê-se, contudo, tanto na lei como na prática de séculos da História da Igreja, que um Bispo pode, e por vezes deve, sagrar - isto é, ‘fazer’ - outro Bispo sem permissão explícita, infringindo até uma ordem específica directa do Papa. O Direito Canónico reconhece a um súbdito o direito de contrariar uma ordem explícita de uma autoridade superior - mesmo que essa autoridade seja o Papa - numa situação específica, se a sua consciência, informada pela doutrina católica e pela reflexão e oração que o caso pede, o persuade de que deve proceder assim (cf. Cânone 1323, especialmente a Secção 4; e o Cânone 1324, especialmente a Secção 1, Subsecção 8, e a Secção 3). Além disso, segundo a lei, a desobediência numa situação específica de quem está sujeito à autoridade em geral do Papa não é ipso facto um acto de cisma - mas, no máximo, um acto de desobediência.

Ora, mesmo neste caso, não é um acto de desobediência, pelo menos subjectivamente, se quem o pratica não se sente obrigado a obedecer à autoridade superior, porque assim o exige a conservação da Fé e o Bem da Igreja. O facto de o Arcebispo Lefebvre ter sagrado Bispos quatro Sacerdotes em 29 de Junho de 1988 ultrapassa o tema da presente obra, mas há artigos de canonistas e teólogos de grande sabedoria que apresentam fortes provas a favor da defesa subjectiva e objectiva deste acto (cf. os artigos de Patrick Valdrini, Decano de Direito Canónico do Institut Catholique de Paris, e do Conde Neri Caponi, Professor Jubilado da Faculdade de Direito Canónico da Universidade de Florença, Itália). Também vários Cardeais do Vaticano defenderam publicamente, em maior ou menor grau, o Arcebispo Lefebvre quanto a este acto.

6. Fundação Cardeal Kung, Open Letter to the Vatican (Carta aberta ao Vaticano), Sec. III, 28 de Março de 2000 (www.cardinalkungfoundation. org/cpa/openletter.html). Em resposta à Fundação (citada na Open Letter), o Arcebispo Levada revela que o “ministério apostólico” dos Sacerdotes da CPA “é executado de acordo com as directivas recebidas da Santa Sé”.

7. Carta ao Padre Nicholas Gruner, 16 de Fevereiro de 2001.

8. A Nova Evangelização é descrita como sendo uma Evangelização que é “nova no seu ardor, nova no seu método, e nova na sua expressão”. É a ideia da “Nova Evangelização” que tem “justificado” o ruidoso “Movimento Carismático” e os Congressos Eucarísticos de Rock and Roll, os Dias Mundiais da Juventude, alcunhados de “Woodstock católicos”, e outras aberrações da Igreja na actualidade. Para um tratamento completo deste tema, cf. John Vennari, “Catholicism Dissolved. The New Evangelization” (O Catolicismo dissolvido. A Nova Evangelização), uma série de quatro artigos na Catholic Family News de Outubro de 1998 a Janeiro de 1999.

9. Veja-se a citação da Irmã Lúcia em The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 758.


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