Capítulo 4

O Terceiro Segredo

       Precisamente como a Virgem Maria predisse em 1917, a 2ª Guerra Mundial começou no pontificado de Pio XI, na altura em que Josef Stálin estava a liquidar os Católicos e a exportar o comunismo mundial a partir da Rússia Soviética. Em Junho de 1943, a Irmã Lúcia, já com 36 anos de idade, adoeceu com pleurisia. Este facto alarmou muito o Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, e o seu grande amigo e conselheiro Cónego Galamba. Ambos receavam que a Irmã Lúcia morresse sem escrever o Terceiro Segredo.

Tão terrível que nem conseguia escrevê-lo

       Assim, sugeriram-lhe em Setembro de 1943 que o escrevesse, mas ela escusou-se a fazê-lo porque não queria assumir por si própria a responsabilidade de uma tal iniciativa. Disse, porém, que obedeceria a uma ordem expressa do Bispo de Leiria. A Irmã Lúcia estava extremamente preocupada com o facto de, sem esta autorização, não ter ainda licença de Nosso Senhor para revelar o Terceiro Segredo.

       Em meados de Outubro de 1943, durante uma visita à Irmã Lúcia no Convento de Tuy, em Espanha (a cerca de 400 quilómetros de Fátima e não longe da fronteira portuguesa), D. José Alves Correia da Silva deu-lhe uma ordem formal para escrever o Segredo. A Irmã Lúcia tentou então obedecer à ordem do Bispo, mas foi incapaz de o fazer nos dois meses e meio que se seguiram.

A própria Virgem Santíssima autoriza
a Irmã Lúcia a revelar o Segredo

       Finalmente, a Santíssima Virgem Maria apareceu de novo a Lúcia em 2 de Janeiro de 1944, para lhe dar forças e lhe confirmar que era realmente da vontade de Deus que ela revelasse a parte final do Segredo. Só então conseguiu a Irmã Lúcia superar a sua perturbação e escrever o Terceiro Segredo de Fátima1. Mas, mesmo assim, só em 9 de Janeiro de 1944 escreveu a seguinte nota ao Bispo D. José Alves Correia da Silva, informando-o de que o Segredo tinha sido finalmente escrito:

       Já escrevi o que me mandou; Deus quis provar-me um pouco [,] mas afinal era essa a sua vontade: Está lacrada [a parte que me falta do segredo] dentro dum envelope e este dentro dos cadernos (…)2.

Uma só folha de papel

       Depreende-se imediatamente que o Segredo implicava dois documentos: um, fechado num envelope; e o outro, contido num caderno de apontamentos da Irmã Lúcia (não sendo assim, por que razão teria ela entregado o caderno, além do envelope?). Para já, concentremo-nos no que estava contido no envelope fechado.

       Lúcia estava ainda tão perturbada com o conteúdo do Segredo que não confiava a ninguém o envelope fechado (juntamente com o caderno de apontamentos), a não ser a um Bispo que o levasse a D. José Alves Correia da Silva. Em 17 de Junho de 1944, a Irmã Lúcia deixou Tuy, atravessou o Rio Minho e chegou ao Asilo Fonseca, onde entregou ao Arcebispo titular de Gurza, D. Manuel Maria Ferreira da Silva, o caderno em que tinha inserido o envelope com o Terceiro Segredo. No mesmo dia, o Arcebispo entregou o Segredo ao Bispo de Leiria na sua casa de campo, não longe de Braga; e este levou-o para o Paço Episcopal em Leiria. Estes pormenores são muito importantes, em vista do que se lê no comentário ao Terceiro Segredo que o Vaticano publicou em 26 de Junho de 2000.

       Desde o início que o testemunho unânime era que o Terceiro Segredo estava escrito em forma de carta, numa só folha de papel. O Padre Joaquín Alonso, arquivista oficial da documentação sobre as aparições de Fátima, relata que tanto a Irmã Lúcia como o Cardeal Ottaviani afirmaram que o Segredo estava escrito numa só folha de papel:

       A Lúcia diz-nos que o escreveu numa folha de papel. O Cardeal Ottaviani, que o leu, diz-nos a mesma coisa: “Ela escreveu-o numa folha de papel” (…)3.

       O Cardeal Ottaviani, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, declarou que lera o Terceiro Segredo e que este estava escrito numa só folha de papel. Testemunhou este facto em 11 de Fevereiro de 1967, numa conferência de imprensa por ocasião de uma reunião da Academia Pontifícia Mariana em Roma. Disse o Cardeal:

       E então, o que fez ela [a Lúcia] para obedecer à Santíssima Virgem? Escreveu numa folha de papel, em português, o que a Santa Virgem lhe pedira que dissesse (…)4.

       O Cardeal Ottaviani é testemunha deste facto. Na mesma conferência de imprensa, disse:

       Eu, que tive a graça e o dom de ler o texto do Segredo - embora também esteja obrigado a mantê-lo secreto, por tal me ser imposto pelo Segredo (...)5.

       Temos igualmente o testemunho de D. João Venâncio, na altura Bispo Auxiliar de Leiria-Fátima, que, em meados de Março de 1957, tinha ordens do Bispo D. José Alves Correia da Silva para entregar cópias de todos os escritos da Irmã Lúcia - incluindo o original do Terceiro Segredo - ao Núncio Apostólico em Lisboa, para este os transferir para Roma. Antes de entregar os escritos da Irmã Lúcia ao Núncio, D. João Venâncio pegou no envelope com o Terceiro Segredo, olhou para ele a contra-luz e reparou que o Segredo estava «escrito numa pequena folha de papel»6. Frère Michel identifica em primeiro lugar a natureza deste testemunho:

       Todavia, graças às revelações do Bispo [D. João] Venâncio, na altura Bispo Auxiliar de Leiria e intimamente envolvido nestes acontecimentos, estamos hoje na posse de muitos factos fidedignos que nós teremos cuidado em não esquecer. Eu próprio os recebi da boca do Bispo [D. João] Venâncio em 13 de Fevereiro de 1984, em Fátima. A este propósito, o antigo Bispo de Fátima repetiu-me, quase palavra por palavra, o que já dissera antes ao Padre Caillon, que disso deu um relato muito pormenorizado nas suas conferências7.

       Aqui está o testemunho de D. João Venâncio, segundo Frère Michel:

       O Bispo [D. João] Venâncio contou que, logo que se viu sòzinho, pegou no envelope grande do Segredo e tentou ver o seu conteúdo à transparência. Dentro do envelope grande do Bispo vislumbrou um envelope mais pequeno, o da Lúcia, e dentro deste envelope uma folha de papel vulgar, com margens, de cada lado, de uns 7,5 milímetros. Teve o cuidado de anotar o tamanho de tudo. Logo, o último Segredo de Fátima foi escrito numa pequena folha de papel8. [ênfase acrescentada].

       Os indícios mostram ainda que esta folha de papel tinha de 20 a 25 linhas de texto. Os testemunhos da Irmã Lúcia, do Cardeal Ottaviani, do Bispo D. João Venâncio, do Padre Alonso, de Frère Michel e de Frère François concordam todos sobre este ponto:

       (…) temos a mesma certeza de que as vinte ou trinta linhas do Terceiro Segredo (…)9.

       O último Segredo de Fátima, escrito numa pequena folha de papel, não é, portanto, muito longo. Provavelmente vinte ou vinte e cinco linhas (…)10.

       D. João Venâncio olhou “para o envelope [contendo o Terceiro Segredo] que segurava contra a luz. Pôde ver dentro dele uma pequena folha, cujo tamanho exacto mediu. Sabemos, assim, que o Terceiro Segredo não é muito longo, provavelmente 20 a 25 linhas (…)”11.

Escrito em forma de carta

       É igualmente claro que o Terceiro Segredo foi escrito em forma de uma carta ao Bispo D. José Alves Correia da Silva. A própria Irmã Lúcia diz-nos que o Terceiro Segredo foi escrito como uma carta. Temos, sobre este ponto, o depoimento escrito do Padre Jongen, que interrogou a Irmã Lúcia em 3 e 4 de Fevereiro de 1946 desta maneira:

       ‘Já revelou duas partes do Segredo. Quando chegará a altura da terceira parte?’ ‘Comuniquei a terceira parte numa carta ao Bispo de Leiria’, respondeu ela12. [ênfase acrescentada]

       Temos em seguida as palavras decisivas do Cónego Galamba:

       Quando o Bispo se recusou a abrir a carta, Lúcia fê-lo prometer que esta seria definitivamente aberta e lida ao Mundo ou por altura da sua morte, ou em 1960, conforme o que sucedesse primeiro13. [ênfase acrescentada]

Para ser revelado ao Mundo em 1960

       Porquê 1960? Em 1955, o Cardeal Ottaviani perguntou à Irmã Lúcia por que razão a carta não devia ser aberta antes de 1960. Respondeu-lhe ela: «porque então parecerá mais claro». Tinha feito com que o Bispo de Leiria prometesse que o Segredo seria lido ao Mundo aquando da sua morte, mas nunca mais tarde que 1960, «porque a Santíssima Virgem assim o quer»14. E escreveu o Cónego Barthas: «Além disso, [o Terceiro Segredo] não tardará a ser conhecido, porque a Irmã Lúcia afirma que é o desejo de Nossa Senhora que ele seja publicado a partir de 1960».

       Este depoimento introduz um terceiro facto crucial a respeito do Segredo: que devia ser revelado em 1960. De facto, o Cardeal Patriarca de Lisboa declarou em Fevereiro de 1960:

       O Bispo D. José Alves Correia da Silva meteu [o envelope fechado por Lúcia] noutro envelope, no qual escreveu que a carta devia ser aberta em 1960 por ele, D. José Alves Correia da Silva, se ainda fosse vivo, ou, em caso contrário, pelo Cardeal Patriarca de Lisboa15. [ênfase acrescentada]

       Diz-nos o Padre Alonso:

       Outros Bispos também falaram - e com autoridade - sobre o ano de 1960 como sendo a data indicada para abrir a famosa carta. Assim, quando o então Bispo titular de Tiava e Bispo Auxiliar de Lisboa perguntou a Lúcia quando deveria ser aberto o Segredo, recebeu sempre a mesma resposta: em 196016. [ênfase acrescentada]

       E em 1959, D. João Venâncio, novo Bispo de Leiria, declarou:

       Penso que a carta não será aberta antes de 1960. A Irmã Lúcia pediu que não fosse aberta antes da sua morte, ou antes de 1960. Estamos agora em 1959 e a Irmã Lúcia está de boa saúde17. [ênfase acrescentada]

       Finalmente, temos a declaração do Vaticano, de 8 de Fevereiro de 1960 (divulgada num comunicado da agência noticiosa portuguesa ANI), sobre a decisão de suprimir o Segredo - documento a que nos voltaremos a referir no Capítulo 6. Lê-se na declaração do Vaticano:

       (…) é muito possível que nunca venha a ser aberta a carta em que a Irmã Lúcia escreveu as palavras que Nossa Senhora confiou aos três pastorinhos, como segredo, na Cova da Iria18. [ênfase acrescentada]

       Assim, todos os depoimentos indicam que o Segredo foi escrito como uma carta, numa só folha de papel com 20 a 25 linhas de texto manuscrito e margens de 7,5 milímetros de cada lado - Segredo esse que devia ser revelado em 1960 e não mais tarde; e particularmente nesse ano porque, então, “seria muito mais claro”.

       Foi este documento que o Bispo D. João Venâncio transferiu para o Núncio Papal que, por sua vez, o transferiu para o Santo Ofício (hoje chamado Congregação para a Doutrina da Fé) em 1957:

       Chegado ao Vaticano em 16 de Abril de 1957, o Segredo foi certamente colocado pelo Papa Pio XII na sua secretária pessoal, numa caixinha de madeira com a inscrição Secretum Sancti Officii (Segredo do Santo Ofício)19.

       É importante notar que o Papa estava à frente do Santo Ofício antes da reorganização do Vaticano, feita pelo Papa Paulo VI em 1967. Por isso, era apropriado que o Papa ficasse com o Terceiro Segredo na sua posse e que a caixa em que o colocara fosse rotulada como “Segredo do Santo Ofício”. Estando o Papa à frente do Santo Ofício, esta caixa ficou a fazer parte do respectivo arquivo. Não esqueça estes factos, leitor, pois são cruciais para quando nos referirmos a eles mais adiante.

Uma predição de apostasia na Igreja

       E com respeito ao conteúdo do Segredo? Voltamos agora à frase reveladora «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.», que, como indicámos num capítulo anterior, aparece no fim do texto integral das duas primeiras partes do Grande Segredo na Quarta Memória de Lúcia.

       Sobre este ponto, devemos recordar o depoimento crucial do Padre Joseph Schweigl, a quem o Papa Pio XII confiou uma missão secreta: interrogar a Irmã Lúcia sobre o Terceiro Segredo. E foi o que ele fez no Carmelo de Coimbra, em 2 de Setembro de 1952. Ao regressar a Roma, o Padre Schweigl dirigiu-se à sua residência no Russicum e disse a um colega no dia seguinte:

       Não posso revelar nada do que ouvi sobre Fátima no que respeita ao Terceiro Segredo, mas posso dizer que tem duas partes: uma fala do Papa. A outra, logicamente (embora eu não deva dizer nada) teria de ser a continuação das palavras: ‘Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé’20.

       Confirma-se assim o que concluímos: que uma parte do Segredo é, de facto, a continuação da frase cuja conclusão o Vaticano tem ainda por revelar: «Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.»

       Esta conclusão é corroborada por muitas outras testemunhas, incluindo as seguintes:

O Padre Agustín Fuentes

       Em 26 de Dezembro de 1957, o Padre Fuentes entrevistou a Irmã Lúcia. A entrevista foi publicada em 1958 com um imprimatur do seu Prelado, o Arcebispo Sánchez, de Veracruz, México. Entre outras coisas, a Irmã Lúcia disse o seguinte ao Padre Fuentes:

       Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus: os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem; os maus, porque, não vendo que o castigo de Deus já paira sobre eles por causa dos seus pecados, continuam também no seu caminho de maldade, sem fazer caso desta Mensagem. Mas - creia-me, Senhor Padre - Deus vai castigar o Mundo, e vai castigá-lo de uma maneira tremenda. O castigo do Céu está iminente.

       Senhor Padre, o que falta para 1960? E o que sucederá então? Será uma coisa muito triste para todos, não uma coisa alegre, se, antes, o Mundo não fizer oração e penitência. Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda um segredo. (…)

       Esta é a Terceira parte da Mensagem de Nossa Senhora que ficará em segredo até 1960.

       Diga-lhes, Senhor Padre, que a Santíssima Virgem repetidas vezes - tanto aos meus primos Francisco e Jacinta como a mim - nos disse que ‘muitas nações desaparecerão da face da terra, que a Rússia seria o instrumento do castigo do Céu para todo o Mundo, se antes não alcançássemos a conversão dessa pobre nação’.

       Senhor Padre, o demónio está travando uma batalha decisiva contra a Virgem Maria. E como sabe que é o que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira deixa também o campo das almas desamparado e mais facilmente se apodera delas.

       O que aflige o Imaculado Coração de Maria e o Sagrado Coração de Jesus é a queda das almas dos Religiosos e dos Sacerdotes. O demónio sabe que os Religiosos e os Sacerdotes que caem na sua bela vocação, arrastam numerosas almas para o inferno. (…) O demónio quer tomar posse das almas consagradas. Tenta corrompê-las para adormecer as almas dos leigos e levá-las deste modo à impenitência final21.

O Padre Alonso

       Antes de falecer em 1981, o Padre Joaquín Alonso, que foi o arquivista oficial de Fátima durante dezasseis anos, testemunhou o seguinte:

       Seria, então, de toda a probabilidade que (…) o texto faça referências concretas à crise da Fé na Igreja e à negligência dos Seus próprios Pastores [e às] lutas intestinas no seio da própria Igreja e de graves negligências pastorais por parte das altas Hierarquias22.

       No período que precede o grande triunfo do Imaculado Coração de Maria, sucederão coisas tremendas que são objecto da terceira parte do Segredo. Que coisas serão essas? Se “em Portugal, se conservará sempre o dogma da Fé”, (…) pode claramente deduzir-se destas palavras que, em outros lugares da Igreja, estes dogmas vão tornar-se obscuros ou chegarão mesmo a perder-se23.

       Falaria o texto original (e inédito) de circunstâncias concretas? É muito possível que não só fale de uma verdadeira ‘crise de fé’ na Igreja durante este período intermédio, mas ainda, como acontece com o segredo de La Salette, por exemplo, que haja referências mais concretas às lutas internas dos Católicos ou às deficiências de Sacerdotes e Religiosos. Talvez se refira, inclusivamente, às próprias deficiências da alta Hierarquia da Igreja. Por isso, nada disto é alheio a outros comunicados que a Irmã Lúcia tenha feito sobre este assunto24.

O Cardeal Ratzinger

       Em 11 de Novembro de 1984, o Cardeal Ratzinger, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, deu uma entrevista à revista Jesus, uma publicação das Irmãs Paulinas. Intitulava-se “Aqui está o motivo de a Fé estar em crise”, e foi publicada com a autorização explícita do Cardeal. Nesta entrevista, o Cardeal Ratzinger admite que uma crise da Fé está a afectar a Igreja em todo o Mundo. Neste contexto, revela que leu o Terceiro Segredo, e que este se refere a «perigos que ameaçam a Fé e a vida do Cristão, e, consequentemente, do Mundo».

       O Cardeal confirma assim a tese do Padre Alonso, segundo a qual o Segredo se refere a uma apostasia generalizada na Igreja. Na mesma entrevista, o Cardeal Ratzinger diz que o Segredo também se refere à «importância dos Novissimi [os últimos tempos / as últimas coisas]», e que, «se não foi tornado público, pelo menos por agora, foi para impedir que a profecia religiosa viesse a descambar no sensacionalismo (…)» O Cardeal mais revela que «o conteúdo deste ‘Terceiro Segredo’ corresponde ao que é anunciado nas Sagradas Escrituras e que tem sido dito, muitas e muitas vezes, em várias outras aparições de Nossa Senhora, a começar por esta, de Fátima, no seu conteúdo já conhecido»25.

D. Alberto Cosme do Amaral

       Completamente de acordo com o Cardeal Ratzinger está D. Alberto Cosme do Amaral, terceiro Bispo de Fátima. Num discurso em Viena de Áustria, em 10 de Setembro de 1984, disse o seguinte:

       O conteúdo [do Terceiro Segredo] diz respeito, unicamente, à nossa Fé. (…) Identificar o [Terceiro] Segredo com anúncios catastróficos ou com um holocausto nuclear é deformar o sentido da mensagem. A perda de Fé de um continente é pior do que o aniquilar de uma nação; e a verdade é que a Fé está continuamente a diminuir na Europa26. [ênfase acrescentada]

O Cardeal Oddi

       Em 17 de Março de 1990, o Cardeal Oddi fez a seguinte declaração ao jornalista italiano Lucio Brunelli, publicada no jornal Il Sabato:

       Ele [o Terceiro Segredo] não tem nada a ver com Gorbachev. A Santíssima Virgem estava a avisar-nos contra a apostasia na Igreja.

O Cardeal Ciappi

       A estas testemunhas devemos acrescentar as palavras do Cardeal Mario Luigi Ciappi, que era, precisamente, o Teólogo pessoal do Papa João Paulo II. Numa comunicação particular com um certo Professor Baumgartner, em Salzburgo, o Cardeal Ciappi revelou que:

       No Terceiro Segredo prediz-se, entre outras coisas, que a grande apostasia na Igreja começará pelo cimo27.

       Todos estes testemunhos concordam com o que a própria Irmã Lúcia disse repetidas vezes - não só ao Padre Fuentes, acima citado, mas a muitas outras testemunhas fidedignas. Embora esteja limitada pelo seu compromisso de não divulgar o conteúdo preciso do Terceiro Segredo, os seus comentários, feitos a testemunhas de crédito, estão cheios de referências a homens da Igreja ... «engana[dos] por falsas doutrinas»; a uma «desorientação diabólica» que afecta «tantas pessoas que ocupam lugares de responsabilidade» na Igreja; a «Sacerdotes e (...) almas consagradas» que «andam tão iludidas e tão transviadas» porque o demónio «tem conseguido infiltrar o mal com capa de bem (...) tem consegiudo iludir e enganar almas cheias de responsabilidade, pelo lugar que ocupam! (...) São cegos a guiar outros cegos!»28.

Pio XII confirma
que o Segredo prevê a apostasia na Igreja

       Mas o testemunho talvez mais notável de todos, quanto a este assunto, embora de uma relevância indirecta, é o do Cardeal Eugenio Pacelli - antes de se tornar o Papa Pio XII - quando ainda era Secretário de Estado do Vaticano durante o reinado de Pio XI. Falando ainda antes de a Irmã Lúcia ter escrito o Terceiro Segredo, o futuro Pio XII fez uma profecia espantosa sobre uma futura convulsão na Igreja:

       As mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima preocupam-me. Esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja é um aviso do Céu contra o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma. (…) Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-lA ter remorsos do Seu passado histórico.

       O biógrafo do Papa Pio XII, Monsenhor Roche, anotou que neste momento da conversa, Pio XII disse então (em reposta a uma objecção):

       Chegará um dia em que o Mundo civilizado negará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a acreditar que o homem se tornou Deus. Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera. Como Maria Madalena, chorando perante o túmulo vazio, perguntarão: “Para onde O levaram?”29.

       É realmente espantoso notar que o futuro Papa relacionava esta intuição aparentemente sobrenatural da devastação que se aproximava da Igreja especificamente com «as mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima» e com «esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja». Uma tal predição não teria qualquer sentido se se baseasse nas primeiras duas partes do Grande Segredo, que não mencionam coisas como «o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma», ou «inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-lA ter remorsos do Seu passado histórico.» E também não há qualquer indicação, nas duas primeiras partes, de que «Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera».

       Como é que o futuro Papa Pio XII sabia estas coisas? É evidente que lhe foi concedido um vislumbre sobrenatural, ou que tinha conhecimento directo de que uma parte das «mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima», que até então não tinha sido revelada, previa estes acontecimentos futuros na Igreja.

       Em resumo, todos os testemunhos acerca do conteúdo do Terceiro Segredo, desde 1944 até pelo menos 1984 (a data da entrevista de Ratzinger), confirmam que este se refere a uma perda catastrófica da Fé e da disciplina na Igreja, abrindo uma brecha às forças há tanto tempo alinhadas contra Ela - os “inovadores” que o futuro Papa Pio XII ouvia “à minha volta”, clamando pelo desmantelamento da Capela-Mor e por mudanças na liturgia e na teologia católicas.

       Como demonstraremos, esta brecha começou a ter lugar em 1960, precisamente no ano em que, como a Irmã Lúcia tinha insistido, a terceira parte do Segredo devia ser revelada. Mas, antes de voltarmos àquele ano decisivo - quando começou a dar-se o grande crime de que falamos -, temos de discutir primeiro o motivo que precedeu o crime. É o que iremos agora fazer.


Notas

1. Frère Michel, The Whole Truth About Fatima - Vol. III: The Third Secret (tradução inglesa, Immaculate Heart Publications, Buffalo, NY, 1990), p. 47.

2. Ibid., Cf. Padre Joaquín Alonso, “O Segredo de Fátima”, Fátima 50, Ano l -Nº 6, 13 de Outubro de 1967, p. 11.

3. Padre Joaquín Alonso, La verdad sobre el Secreto de Fátima (Centro Mariano, Madrid, Espanha, 1976), p. 60. Cf. também Frère Michel, The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 651.

4. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 725.

5. Ibid., p. 727.

6. Frère François de Marie des Anges, Fatima: Tragedy and Triumph (Immaculate Heart Publications, Buffalo, NY, 1994), p. 45.

7. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 480.

8. Ibid., p. 481.

9. Ibid., p. 626.

10. Fatima: Tragedy and Triumph, p. 45.

11. Frère Michel de la Sainte Trinité, The Secret of Fatima ... Revealed (Immaculate Heart Publications, Buffalo, NY), p. 7.

12. Revue Médiatrice et Reine, Outubro de 1946, pp. 110-112. Cf. também The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 470.

13. Padre Joaquín Alonso, La verdad sobre el Secreto de Fátima, pp. 46-47. Cf. também The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 470.

14. Barthas, Fatima, merveille du XXe siècle, Fatima-Éditions, 1952, p. 83. Note-se que o Cónego Barthas publicou este relato depois de ter tido o privilégio de se encontrar novamente com a Irmã Lúcia, em 15 de Outubro de 1950, na companhia de Monsenhor Bryant, O.M.I., Vigário Apostólico de Athabasca-Mackenzie. Cf. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 472.

15. Novidades, 24 de Fevereiro de 1960, citado por La Documentation Catholique de 19 de Junho de 1960, col. 751. Cf. também The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 472.

16. Padre Joaquín Alonso, La verdad sobre el Secreto de Fátima, p. 46. Cf. também The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 475.

17. Ibid., p. 46. Cf. também The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 478.

18. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 578.

19. Fatima: Tragedy and Triumph, p. 45.

20. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 710.

21. A tradução inglesa da entrevista dada pela Irmã Lúcia ao Padre Fuentes encontra-se na obra de Frère Michel The Whole Truth About Fatima - Vol. III, pp. 503-508. Frère Michel explica que o texto foi tirado da obra do erudito de Fátima, Padre Joaquín Alonso, La verdad sobre el Secreto de Fátima (pp. 103-106) e do texto do Padre Ryan, publicado na edição de Junho de 1959 de Fatima Findings e no Nº 8-9, Agosto-Setembro de 1961, da revista italiana Messaggero del Cuore di Maria. A entrevista da Irmã Lúcia ao Padre Fuentes foi publicada com o Imprimatur do Arcebispo Sanchez, de Veracruz (México).

22. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 704.

23. Padre Joaquín Alonso, La verdad sobre el Secreto de Fátima, Cf. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 687.

24. Ibid., pp. 705-706.

25. Ibid., pp. 822-823. Cf. também a revista Jesus, 11 de Novembro de 1984, p. 79, e ainda The Fatima Crusader, Nº 37, Verão de 1991, p. 7.

26. Fatima: Tragedy and Triumph, pp. 243-244. Cf. também The Whole Truth About Fatima - Vol. III, p. 676.

27. Cf. Padre Gerard Mura, “The Third Secret of Fatima: Has It Been Completely Revealed?”, na publicação periódica Catholic (publicada pelos Redentoristas Transalpinos, Ilhas Órcades, Escócia, Grã-Bretanha), Março de 2002.

28. Estas citações foram condensadas a partir de numerosas cartas que a Irmã Lúcia escreveu no início da década de 70 a dois sobrinhos que eram Sacerdotes, e a outros religiosos que conhecia. Padre S. Martins dos Reis, Uma vida ao serviço de Fátima (Escola tipografica das missões cucujães, Cucujães 1974), pp. 371-379. Cf. The Whole Truth About Fatima - Vol. III, pp. 754-758.

29. Roche, Pie XII Devant l'Histoire, pp. 52-53.


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